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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Vocação

Se chamarem pelo teu nome,
Responde, antes mesmo de identificar a voz;

Se te convidarem a deixar casa e terra,
Parte, mesmo que não conheças o destino;

Se te enviarem em missão,
Vai, ainda que ignores para onde;

Se baterem à tua porta,
Abre, ainda que não seja um rosto amigo;

Se te pedirem um pedaço de pão ou um copo de água,
Dá do que tens, antes mesmo de saber a quem;

Se ouvires o grito dos pobres e excluídos,
Estende a mão, mesmo ignorando de onde vem o clamor;

Se fores chamado à ação,
Sê solidário, mesmo sem saber o que construir;

Se teu irmão reclamar tua presença,
Pára e ouve, ainda que seja apenas o silêncio;

Se um estranho te dirigir um olhar ou um sorriso,
Acolhe-o em teu coração, ainda que seja desconhecido;

Se o caminheiro se perder no caminho,
Faz de tua vocação uma pátria,
Mesmo que não lhe conheças a cultura;

Se tua alma inquieta não consegue repousar,
Interroga o mistério que mora em teu íntimo
E em segredo põe-te à escuta...

Pois...
Por trás de cada uma dessas vozes
Deus te chama e te envia a um novo serviço
E conta com tua resposta pronta e positiva.

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Itaici, Indaiatuba/SP, 10/02/04

O mundo é nossa pátria

Acima de todos os muros e cercas
Erguem-se os sonhos dos que migram:
Como espigas de milho ou cachos de uva,
Levantam-se do chão para buscar o sol.



Acima dos impérios e seus tiranos
Ergue-se a esperança dos que caminham:
Como um rio que tudo arrasa ou tudo irriga,
Segue para o mar, irmão de todos os povos.



Acima das leis que defendem a riqueza de poucos
Erguem-se o canto e a dança das multidões:
Como um jardim no despontar da primavera,
Espalham flores e cores pelas ruas e campos.



Acima dos latifúndios e das contas bancárias,
Erguem-se o sorriso da criança e o olhar do amor:
Como estrelas em meio à noite escura,
Apontam o rumo da grande travessia.



Acima do trovão e da força das armas
Ergue-se o som dos passos em marcha:
Aos milhares buscam o horizonte
De um amanhã que já se faz menino.



Acima da guerra, da violência e da morte,
Ergue-se a voz dos que querem viver:
Como uma orquestra de cores e amores
No solo da história lança a semente.



Acima das fortalezas e dos exércitos
Ergue-se o grito dos que não se deixam abater:
Como o beijo da aurora que se aproxima,
Leva luz aos subterrâneos e porões ocultos.



Acima da fronteira que divide e separa
Ergue-se a utopia da cidadania universal:
Como o vento que não conhece barreiras,
Anuncia que o mundo é nossa pátria!


Pe. Alfredo José Gonçalves

A Semente

Uma só semente contém a árvore,
Contém a flor, a folha e o fruto,
No mistério da vida que se renova

Uma só gota d’água contém o rio
Que corta e fecunda a terra
Mãe e fonte de todos os seres vivos.

Um só passo contém a caminhada,
Um a um, tenaz na travessia,
Aproxima do horizonte o peregrino.

Uma só palavra contém a linguagem,
Expressão mais viva de um povo,
Que revela e esconde seus segredos.

Uma só lágrima contém o pranto,
Símbolo da tormenta que devasta,
Mas também da dor que purifica e redime.

Um só sorriso contém a alegria,
Sinal de portas que se abrem,
Luz de uma cidadania sem fronteiras.

Um só olhar contém a alma,
Caminho para o encontro eu-tu
Onde a mesa será farta e fraterna.

Um só toque contém a relação com o diferente,
Ao mesmo tempo que aponta
Para a relação com o transcendente.


Pe. Alfredo J. Gonçalves
São Paulo, 19 de abril de 2006